O mercado financeiro brasileiro encerrou a semana sob forte pressão. Nesta sexta-feira (30), o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), registrou a quinta queda consecutiva e acumulou desvalorização de 18,12% na semana, o pior desempenho desde março de 2020, quando os mercados foram atingidos pelos efeitos iniciais da pandemia de Covid-19.
O dólar também apresentou forte valorização, encerrando o dia próximo de R$ 5,45. Na semana, a moeda norte-americana acumulou alta de 9,04%, o maior avanço semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira internacional.
A instabilidade foi atribuída por analistas à reavaliação das expectativas dos investidores após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições presidenciais, realizado no último domingo (25).
Ibovespa perde mais de 18% em cinco pregões
O Ibovespa encerrou a sessão desta sexta-feira em 167.921,80 pontos, com queda de 0,75%. Durante o dia, o índice chegou à mínima de 167.007,57 pontos e à máxima de 169.184,60 pontos.
A perda semanal de 18,12% foi a maior desde a semana encerrada em 20 de março de 2020, quando a Bolsa recuou 18,88%.
No acumulado de outubro, o índice registrou queda de 9,88%, o pior desempenho mensal desde junho de 2022.
O volume financeiro negociado nesta sexta-feira foi de R$ 43,47 bilhões.
No início de outubro, o Ibovespa havia superado a marca de 209 mil pontos, impulsionado por expectativas de parte do mercado financeiro em relação a uma possível mudança de governo.
Com a vitória de Lula, investidores passaram a reavaliar suas posições, especialmente diante das incertezas sobre a política fiscal e os rumos da economia a partir de 2027.
Dólar registra maior alta semanal desde 2008
No mercado de câmbio, o dólar encerrou a sexta-feira próximo de R$ 5,45, atingindo o maior patamar de fechamento de 2026, conforme os dados apresentados no levantamento.
Ao longo da sessão, a moeda norte-americana chegou a ser negociada a R$ 5,4621.
Na semana, a valorização acumulada foi de 9,04%, impulsionada principalmente pela disparada de 8,12% registrada na segunda-feira (26), primeiro pregão após o resultado eleitoral.
O movimento representa a maior alta semanal desde outubro de 2008, período marcado pela crise financeira global.
Em outubro, o dólar acumulou valorização de 5,20%, enquanto no ano a alta chegou a 0,81%.
Investidores demonstram preocupação com contas públicas
Segundo o chefe de alocação de investimentos da GT Capital, Nicolas Gass, parte dos investidores havia se posicionado considerando uma vitória da oposição e a possibilidade de mudanças na condução da política fiscal.
Com a reeleição de Lula, essas expectativas foram revistas, provocando vendas de ações e saída de recursos do mercado brasileiro.
Dados da B3 apontam que investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 7,6 bilhões do mercado secundário de ações nos três primeiros pregões da semana.
Apesar disso, o saldo de investimentos estrangeiros permanecia positivo em quase R$ 8,6 bilhões no mês e R$ 36 bilhões no acumulado do ano.
Outro fator de preocupação é a indefinição sobre a futura equipe econômica do governo, especialmente em relação ao comando do Ministério da Fazenda.
Cenário internacional também pressiona o mercado
Além das questões internas, a queda das ações de grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos contribuiu para o aumento da aversão ao risco.
O índice S&P 500, um dos principais indicadores do mercado norte-americano, encerrou a sexta-feira com recuo de 1,82%.
Analistas também apontam preocupações relacionadas à inflação internacional, aos preços do petróleo e à possibilidade de manutenção de juros elevados nas principais economias.
Para Ricardo Chiumento, responsável pela Tesouraria do banco BS2, a combinação entre incertezas fiscais no Brasil e um cenário externo desfavorável contribuiu para a forte desvalorização do real.
Mercado acompanha próximos passos do governo e decisão sobre juros
A atenção dos investidores agora se volta para os próximos anúncios econômicos do governo federal e para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), prevista para quarta-feira (4 de novembro).
A expectativa mencionada por analistas é de manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano.
A estrategista de câmbio do banco ABN Amro, Georgette Boele, avalia que a reação do mercado pode ter sido excessiva e considera possível uma recuperação do real, dependendo da estabilização do cenário político e da sinalização de medidas para melhorar as contas públicas.
A partir de terça-feira (3), a B3 também terá mudanças nos horários de negociação devido ao encerramento do horário de verão em mercados internacionais. O pregão será ampliado em uma hora, com o fechamento previsto para as 18h.
R7